Analise iPhone  
sábado, 20 de janeiro de 2007 , nº 4


A Apple tem uma grande facilidade em atrair a atenção da mídia. Umasimples apresentação de Steve Jobs feita durante o MacWorld 2007 foisuficiente para que o iPhone ganhasse a atenção do mundo, sendocomentado em inúmeros sites e blogs técnicos, além de ser capa emdiversas revistas da grande imprensa.



Embora o iPhone ainda esteja há alguns meses de seu lançamento(planejado para Junho de 2007) e o projeto seja "segredo de estado"dentro da Apple, já é possível traçar um retrato do aparelho baseadonas informações disponíveis. Vamos lá.





A primeira coisa que chama a atenção no projeto é que ele não possuiteclado ou dial-pad. Ao invés disso, um teclado ou dial-pad virtual émostrado de acordo com a situação.A maioria dos usuários de PDAs acaba usando pouco a stylus, preferindousar os dedos. Retirar e depois guardar a Stylus é realmente uma perdade tempo, de forma que ela acaba sendo usada apenas para tarefas queexigem mais precisão.Percebendo isso, a Apple desenvolveu uma interface para o iPhone que éotimizada para ser usada diretamente com os dedos. Ele sequer possuiuma stylus. Isso foi possível em grande parte devido à boa resolução datela, com seus 320x480 (a mesma resolução usada no Palm TX) e o uso defontes grandes.Parte das funções são acionadas por gestos, um conceito antigo, mas queainda não havia sido implementado em PDAs. Por exemplo, ao rolar umapágina web, ou alternar entre títulos na lista de músicas, o scroll éfeito de acordo com a velocidade em que você arrasta o dedo. Searrastar muito rápido, você pode ir direto ao final da página.



No aplicativo de imagem, um gesto de pinça, abrindo o polegar e oindicador sobre a tela faz com que a imagem seja ampliada. Fazendo omovimento inverso ela é reduzida.O iPhone possui também um sensor de movimento, que é bem aproveitadopelo software. O simples gesto de levar o telefone à orelha, faz comque a ligação seja atendida e girá-lo faz com que um vídeo, foto oupágina web passe a ser mostrado em modo wide-screen.Quem sabe esta idéia de controle de funções na interface através degestos passe no futuro a ser usada também em PCs. Uma webcam ou outrodispositivo similar poderia mapear movimentos das mãos feitos na frentedo monitor, permitindo que algumas tarefas, como minimizar e maximizarjanelas, rolar páginas e alternar entre programas sejam feitasdiretamente com gestos, sem precisar do mouse ou teclado, no melhorestilo Minority Report ;).A questão da navegação web também foi atacada de uma forma peculiar. Aoinvés de otimizar as páginas para as dimensões da tela, simplificando olayout, como fazem navegadores mobile como o Opera Mini, o iPhonesimplesmente renderiza os sites no formato real, reduzindo o tamanhodas fontes e imagens de forma que eles se ajustem na tela. Dando doistoques sobre a tela, a página é ampliada, permitindo que você consigaler.


>Outro recurso bastante divulgado é o acesso a mapas, utilizando oGoogle Maps. Aqui devo discordar da originalidade do recurso, pois oGoogle Maps pode ser usado em praticamente qualquer smartphone. Ele jápossui até mesmo uma versão para Palms, que utilizo regularmente.



O acesso ao Google Maps no iPhone é provido por um applet, uma espécie de página web glorificada, exibida através do navegador. Existem outroswidgets para acompanhar cotações das ações, ver a previsão do tempo, etc. sempre exibindo informações retiradas de determinadas páginas web.O maior problema é que o Google Maps consome muita banda, principalmente ao visualizar imagens de satélite, por isso acaba sendo interessante apenas para quem possui um plano de dados ilimitado. Outraquestão é que os mapas estão disponíveis apenas para os EUA e alguns países da Europa. Para o Brasil, temos apenas as imagens do satélite.Além da transmissão de dados através da rede celular, o iPhone também pode se conectar a redes Wi-Fi, fazendo o chaveamento de forma automática quando uma rede wireless está disponível. Ao acessar atravésda rede celular, é utilizado o Edge, que permite taxas em torno de 230 kbits reais, com fallback para o GPRS (cerca de 70 kbits) nas áreasmais remotas.Também é possível usar periféricos Bluetooth e fazer a comunicação como PC de forma normal. Possivelmente a Apple incluirá a opção detransferir as músicas e outros arquivos diretamente usando a interfacewireless, deixando o sincronismo via USB como opção de emergência.O iPhone também oferece acesso a e-mails, agenda, visualizador de fotos(ele inclui uma câmera de 2 megapixels), vídeos, etc. além de ser aomesmo tempo um iPod, com acesso ao iTunes e tudo mais. Você pode veralguns vídeos de apresentação na página da Apple: http://www.apple.com/iphone/technology/.Na verdade, todos estes recursos estão disponíveis a muito tempo emoutros smartphones. Consigo navegar, ler os e-mails, usar o MSN/ICQ,usar o Google Maps, ouvir meus MP3 e assistir filmes e seriados(armazenados num cartão SD de 2 GB), administrar servidores Linux viaSSH, ler e-books e até jogar joguinhos de Nintendo no meu Treo 650, queé um aparelho lançado a mais de 2 anos.Desconsiderando a interface e o "fun factor", nenhum dos recursosoferecidos pelo iPhone são realmente novos. O que fizeram foi criar umformato mais atrativo para o conceito de smartphone e levá-lo ao grandepúblico. Graças a ele, a palavra "convergência" está novamente em moda,com o grande público percebendo que carregar um único aparelho, que acumule as funções de PDA, telefone, câmera, MP3player, etc. é mais interessante do que andar por aí fantasiado de Batman, com o cintocheio de bugigangas ;).Na minha opinião, o celular do futuro será um dispositivo geral decomunicação, acesso à informação e entretenimento e não apenas umtelefone de voz. Num futuro talvez não tão distante, você será capaz deacessar todas as suas informações pessoais e arquivos através docelular, usá-lo para se comunicar com seus contatos de diversas formas(seja através de mensagens e e-mail, ou via VoIP), atualizar sua páginaou blog, usá-lo como aparelho de som ou VCR, transmitindo áudio e vídeopara outros aparelhos da casa via wireless e assim por diante.Você poderia baixar um filme ou seriado usando o desktop, transmiti-lopara o celular usando a rede wireless, começar a assistí-lo no próprio celular, enquanto está preso no engarrafamento e terminar de vê-lo na TV ao voltar pra casa, transmitindo do celular para a TV via streaming.Embora não esteja convencido de que o iPhone é o celular do futuro, elecom certeza está no caminho certo. O maior problema é o preço.Inicialmente ele estará disponível apenas para usuários da Cingular(uma das maiores operadoras dos EUA, concorrendo com a Verizon), pela bagatela de:



Note que este valor de US$ 599 é subsidiado pelo contrato de dois anos.O valor "cheio" do iPhone, sem contrato, deve estar entre US$ 800 e US$900. Está disponível também uma versão de 4 GB, que custa apenas 100dólares a menos. Isto coloca o iPhone no topo da classe high-end dossmartphones, um luxo reservado aos mais abastados.Ainda não existe informação sobre a disponibilidade para outrasoperadoras. A Cingular é uma operadora GSM, de forma que uma versãodestrava do iPhone poderia ser usada em conjunto com qualquer operadoranacional, com exceção da Vivo. Entretanto, sem o subsídio oferecidopela Cingular, o preço de venda seria bem mais alto. Presumindo que umaversão destravada fosse vendida a US$ 800, ele não custaria menos de R$2500 aqui no Brasil.Vamos então à questão do hardware.É certo que o iPhone não é baseado num processador x86. Segundo um artigo do informationweek.com,a Samsung foi a escolhida para fornecer o processador principal e ochip responsável pelo vídeo, o que torna claro que o iPhone serábaseado num processador ARM, assim como os Palms e Pocket PCs. Os chipsARM são processadores otimizados para dispositivos portáteis, eles sãorelativamente rápidos e bastante econômicos. Um Intel Xscale de 500MHz, por exemplo, tem um desempenho que rivaliza com o de um Pentium II450.Os efeitos 3D usados para alternar entre as faixas de áudio naapresentação, sugerem também o uso de um controlador de vídeo 3D, assimcomo o usado no Dell Axim X51v. Se confirmada, a presença docontrolador 3D permitiria também o desenvolvimento de jogos maiselaborados.Voltando aos fornecedores, a Marvell fornecerá o chipset wireless, aAltus fornecerá a câmera, a Cambridge Silicon Radio fornecerá otransmissor Bluetooth e a Foxconn (a mesma que fabrica placas-mãe) faráa montagem do aparelho. Um exemplo de economia globalizada... ;)Um ponto negativo é que o iPhone utiliza uma bateria interna, aocontrário da maioria dos telefones atuais, que permitem o uso debaterias extras. Para alguns isso pode ser um grande inconveniente, masa maioria provavelmente não vai se importar muito com o fato. Afinal,poucos têm o hábito de comprar baterias extras para o celular dequalquer forma. Ele pode ser carregado diretamente através da portaUSB, com a opção de um carregador tradicional, ligado na tomada.



Os 8 GB de armazenamento são constituídos inteiramente de memóriaflash, nada de HDs com partes móveis. Isto é possível devido à grandequeda nos preços da memória Flash no mercado internacional. Atualmente,8 GB de memória flash custam menos de US$ 150 para os fabricantes.



A memória flash serve apenas como espaço de armazenamento. Além dela,temos uma quantidade limitada de memória RAM (ou SRAM) tradicional,possivelmente 64 ou 128 MB, usada pelo sistema e aplicativos. Umainformação significativa é que o iPhone roda uma versão reduzida do MacOS X, e não um novo sistema.Pode parecer estranho que tenham conseguido simplificar o pesado OS X aponto de rodar num smartphone, mas na verdade isto deve ter sidorelativamente simples. O OS X é um sistema Unix, derivado do BSD, quesegue a mesma estrutura básica que temos no Linux, com um Kernelbastante leve e um grande conjunto de drivers, bibliotecas eaplicativos rodando sobre ele. O sistema é bastante portável, de formaque apenas uma pequena parte do código precisa ser alterada para rodarem outras plataformas.Eliminando todo o overhead necessário num desktop e criando um set deaplicativos otimizados, a Apple conseguiu chegar ao OS X que roda noiPhone, que ocupa menos de 500 MB da memória flash integrada.Naturalmente, o iPhone não pode rodar diretamente aplicativos para o OSX "completo", mas a familiaridade com o sistema deve ajudar osdesenvolvedores interessados em desenvolver aplicativos para ele.Concluindo, ele mede 11.5 x 6.1 cm (com 1.16 cm de espessura) e pesa 135 gramas.



Em seguida temos a questão do software, que ainda é um tanto quantonebulosa. Até o momento, a Apple deu a entender que o iPhone será umaplataforma fechada, similar ao iPod, onde todo o desenvolvimento desoftware é controlado por eles. Isso estaria de acordo com atradicional postura "não mexa no meu chocolate" adotada pela empresa.Do ponto de vista deles, manter a plataforma fechada faz sentido, poisevita que aplicativos mal desenvolvidos estabilizem o sistema ou criembrechas de segurança, como é comum nos Pocket PCs e Palms. Controlandoo software, a Apple pode se certificar de que o iPhone vai funcionarcomo esperado nas mãos dos consumidores. Obviamente isto é uma faca dedois gumes, já que com menos aplicativos, a plataforma se torna menosatrativa.Um smartphone é bem diferente de um mp3player. Enquanto a grandemaioria das pessoas se contenta com as funções padrão do iPod, umaparcela bem maior precisa de utilitários específicos instalados em seussmartphones ou palmtops. A falta de um grande poll de aplicativos, é umgrande risco para o iPhone, já que quem precisar de qualquer coisa forado arroz com feijão, vai acabar procurando outra plataforma.Embora a Apple apareça com inovações regularmente, raramente conseguemse manter como líderes dos mercados que criaram durante muito tempo,pois suas inovações são rapidamente copiadas (e aperfeiçoadas) poroutros fabricantes, que passam a oferecer produtos concorrentes,geralmente a preços inferiores. Um dos casos mais recentes é o próprioiPod, que causou uma pequena revolução ao ser lançado, mas atualmenteenfrenta forte concorrência.O iPhone é uma jogada arriscada, por diversos motivos. O primeiro é queo produto ainda não existe. O que foi apresentado é apenas umprotótipo, que ainda receberá mudanças e melhorias antes de chegar àversão final. Os preços divulgados também são uma estimativa;provavelmente a Apple está contando com vendas de um certo número demodelos e amortização dos preços de alguns componentes. Se algo dererrado, os preços finais podem ser mais altos, o que colocaria em riscoas vendas do aparelho.Finalmente, existe uma disputa legal com relação à marca "iPhone", queatualmente é propriedade da Cisco, que a utiliza numa linha deSmartphones, com suporte ao Skype e outros programas VoIP. É provávelque a disputa da marca acabe amigavelmente, com a Apple pagando algumaquantia vultosa para a Cisco, mas neste caso tudo pode acontecer.Dependendo da postura adotada pela Cisco, a Apple pode ser forçada ausar outro nome, ou correr o risco de ter o lançamento embargado emalguns países.

O iPhone da Cisco


Antes mesmo de ser lançado, o iPhone já tem concorrentes de peso. Um deles é o OpenMoko (http://www.openmoko.com/press/index.html),outro produto em fase de desenvolvimento, que foi apresentado pela FICem novembro de 2006 e deve ser lançado em algum ponto do primeirosemestre, agora em 2007.

OpenMoko


Apesar da aparência ser similar, o OpenMoko é uma idéia completamentediferente do iPhone. Em primeiro lugar, as especificações são muitodiferentes; o OpenMoko utiliza um processador muito mais simples eapenas 128 MB de memória flash (expansível usando cartões SD). Emsegundo lugar, ele é um projeto quase que completamente aberto, desde opróprio hardware, até o sistema operacional, baseado no Kernel Linux eoutras ferramentas abertas.O objetivo da FIC é criar um aparelho barato, para o qual seja fácildesenvolver aplicativos. Basicamente, qualquer desenvolvedor pode criarou portar um aplicativo já existente para o aparelho, sem necessidadede licenciamento. Com isso, a FIC espera criar um novo ecossistema emvolta do aparelho, com empresas e desenvolvedores autônomosdesenvolvendo softwares, acessórios e até mesmo versões modificadas doaparelho. E, todos sabemos que, no final, o que diferencia umaplataforma de sucesso das demais, são justamente os aplicativos.A história tem mostrado que as plataformas abertas tendem a prevalecer.É justamente este o principal risco para o iPhone: ser esmagado porsoluções mais abertas, baratas e flexíveis de outros fabricantes. Seriaapenas mais um capítulo da novela "inventou mas não levou" estreadaApple.


Analise feita por: http://www.amauta.inf.br/index.php?option=com_content&task=view&id=4341&Itemid=29

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